por Eduardo Graça
Não seria este o momento ideal, no despertar de uma derrota avassaladora no UFC 110, na Austrália, criticar a estratégia de luta de um dos maiores ícones da história do MMA, Antônio Rodrigo Minotauro Nogueira.
Todos assistiram atônitos suas lutas nos tempos do extinto e saudoso Pride FC: epopéias sangrentas que encontravam seu apogeu em arm-locks e triângulos inimagináveis tanto para seus sedentos adversários quanto para o aflito público que, por muitas vezes, se extasiava às lágrimas ao testemunhar um homem se reerguer das mais severas adversidades, para sorrir um sorriso deformado, exausto e humilde frente à arduamente alcançada vitória. Raríssimas performances esportivas e até mesmo artísticas seriam tão inspiradoras, cativantes e emocionantes quanto as de nosso mestre e ídolo Minotauro Nogueira.
Reconhecido incontestavelmente como o melhor lutador de chão da história dos pesos-pesados, Rodrigo Minotauro sempre esbanjou confiança e destemor boxeando contra adversários mais experientes e escolados nas artes de trocação. Quando de sua luta contra Sergei Kharitonov, por exemplo, Minotauro fez uma luta predominantemente em pé, gozando de sua desumana capacidade de absorção de golpes para conectar suas próprias sequências e levar a decisão sobre o boxer russo. Sua competência na luta em pé é inegável.
Em sua estréia no UFC, em julho de 2007, Minotauro trouxe uma aula de pugilismo ofensivo a Heath Herring, e seu queixo de aço garantiu-lhe a decisão unânime dos juízes após sofrer mais um knock-down lendário em sua trajetória vitoriosa.
Em sua segunda luta pelo evento americano, Minotauro decidiu mais uma vez investir no boxe para enfrentar Tim Sylvia, notório por usar sua enorme envergadura para castigar seus oponentes com golpes retos de uma distância segura. Mais uma vez o boxe defensivo do lutador brasileiro foi exposto e Minotauro sofreu nada menos que três knock-downs do Maine-iac em 2 rounds. Assim que a luta atingiu o solo, no 3º assalto, Minotauro raspou e finalizou o gigante americano com a categoria que só uma lenda do jiu jitsu adaptado ao MMA poderia fazer. E mais uma gloriosa volta por cima e mais um cinturão passaram a fazer parte da ilustre carreira do bom baiano Minotauro.
Seu próximo desafio no Ultimate seria Frank Mir. Em entrevistas pré-luta, os treinadores de Minotauro afirmavam que de maneira nenhuma seu atleta buscaria a luta no solo, e todos apostavam em uma vitória por nocaute. Pela terceira vez em três lutas Minotauro trouxe um bom repertório de sequências ofensivas, mas sua reduzida movimentação de cabeça e sua guarda baixa se mostraram fraquezas demasiado evidentes e no primeiro round ele sofreria dois knock-downs de Mir. No segundo assalto o baiano insistiria em lutar boxe com o grappler americano e seu queixo de aço não foi capaz de resistir aos repetidos overhands de esquerda que já tinham encontrado endereço em sua face direita. Mir by TKO.
No UFC 102, Rodrigo Nogueira enfrentaria outra lenda do esporte: Randy Couture. Gozando de maior enverdura, Minotauro aplicou dois knock-downs no Captain America, fato que, por si só, não reflete a realidade da luta em pé naquele main-event. Minotauro absorveu diversos golpes limpos de Couture, que nunca foi conhecido por ter mãos pesadas, e que já havia demonstrado, antes daquela ocasião, fragilidade na resistência a golpes traumáticos. Talvez o maior êxito de Minotauro naquela luta não tenham sido os knock-downs, mas sua capacidade de raspar e reverter o consagrado wrestler em diversos momentos do combate, mostrando sua larga superioridade no solo.
Infelizmente, porém, esta vitória parece ter confirmado e justificado a estima que nosso herói brasileiro tem pela luta em pé, mesmo não sendo esta sua especialidade, e mesmo sendo essa sua principal fraqueza em todos os combates aqui descritos; pois em fevereiro de 2010, no UFC 110, Antônio Rodrigo Nogueira foi derrotado brutalmente por um adversário mais rápido e mais forte, que soube fazer prevalescer sua técnica de trocação sobre àquela de nosso lutador.
No curso dos dois minutos e vinte segundos de duração total da luta, Minotauro se engajou por três vezes, ofensivamente, em sessões de trocação com Cain Velasquez e foi agredido com mais eficácia do que agrediu em todas, culminando em seu trágico nocaute precoce.
É agora, então, que se levantam as perguntas que motivam todo este artigo: deveria repousar na trocação a principal ênfase de estratégia de luta do Minotauro?
Se em todas as suas lutas no UFC a trocação foi seu calcanhar de aquiles e o chão sua rota para a vitória; e se nenhum lutador nos pesos pesados do UFC tem as credenciais de luta de solo no MMA que o nosso Minota tem, por quê optar por trocar francamente em uma categoria povoada por lutadores cada vez maiores e mais fortes? Lutar por baixo contra wrestlers e buscar galgar melhores posições e eventualmente finalizações não seria uma estratégia mais segura para um faixa-preta do calibre do Minotauro? Ou será que contar com um queixo de aço sempre levará á vitória?
Gostaria que todos os fãs e admiradores do Minotauro entendessem este artigo como uma crítica construtiva e sensível às reais capacidades deste exímio lutador que, ao aliar sua técnica maestral a uma estratégia condizente com suas especialidades, tem tudo para reconquistar o título dos pesos-pesados no maior evento de MMA do planeta.
Trocar com Cain Velasquez, Shane Carwin, Brock Lesnar, Todd Duffee, etc. não pode ser o caminho.
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